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Em um dia muito quente de verão, eu coloquei meu vestido florido preferido e mais prático para ir ao médico no centro de Florianópolis. Como o calor era demais, saí sem maquiagem e com os cabelos mais ou menos molhados, já que ficar debaixo de um secador de cabelo no alto verão é algo impossível. Estava meio perdida, olhando de um lado para o outro, no esquina da Felipe Schimidt com a Deodoro, procurando por uma farmácia que o endocrinologista indicou. Nem de longe eu estava nos melhores dias da minha vida. Estava acima do peso. A tireóide preguiçosa desde o fim do ano passado ainda não revelada e a comilança no Rio Grande do Norte fizeram mal para a minha silhueta. Eis que um senhor, com um ar distinto e com alguns documentos na mão, me abordou de forma educada. Tomei um susto, porque estava realmente concentrada em achar a tal farmácia. Ele parou na minha frente, sorriu e perguntou: Are you brazilian? Assenti com a cabeça que sim. Ele exclamou: Que bom! Posso falar português! Ele não esclareceu se achou que eu era estrangeira, mas tudo leva a crer que sim. Enão o senhor abriu um sorriso ainda maior e disse (pelo que me lembro, com essas palavras): Bom dia! Desculpe por te parar assim, sei que parece estranho, mas queria dizer que se eu não fosse casado com a minha senhora, pediria a mão da senhorita em casamento agora mesmo. Você é muito bonita! Parabéns! Apertou a minha mão, sorriu mais uma vez ainda. Desejou bom dia novamente e seguiu seu caminho. A coisa toda durou uns 3 minutos, pela minha contagem, muito mais psicológica do que cronológica. Costumo me ofender com abordagens de homens estranhos por aí. Nesse dia fiquei meio atônita, mas não ofendida. Talvez ele tenha enxergado em mim naquele momento algo que luto todos os dias, desde que tomei consciência de que sou uma representante do sexo feminino, para enxergar. Dá para contar nos dedos as vezes que consegui. Assim sou eu, refém da máquina de moer gente.
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