quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tempo que não se pede

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Eu já dei um tempo com alguém. Na verdade, a pessoa me pediu o tal tempo. E eu, que nunca acreditei nessa história, me vi agarrada à esperança de que o afastamento melhoraria as coisas. Todo mundo que entra nessa acredita que vai ser diferente. Mesmo vendo diversas histórias fracassadas de gente que deu um tempo, voltou e mais tarde percebeu que o descompasso era irreversível. Eu, como a maioria das pessoas que gosta e se importa, me agarrei à exceção, ao mísero caso da prima da amiga da namorada do irmão, que depois de dar um tempo, casou com o dito cujo, teve três crianças bochechudas, comprou um labrador e viveu feliz para sempre, amém. Acreditei que a fase boa voltaria. Ele lembraria de como era bom. Eu poderia rever minhas atitudes. Ficaríamos juntos novamente. Nós até reatamos por algum tempo, mas não foi definitivo. Algum tempo depois o desgaste ficou evidente demais e a corda rompeu. Cada um para o seu lado. Nunca existiu tempo para ser negociado.

Isso aconteceu há um bom tempo. Na época, por uma dessas coincidências da vida, o texto a seguir chegou até mim. Eu não o levei a sério e me senti agredida durante a leitura. Preferi conservar a esperança. Olhando com mais calma depois, percebi o quanto de verdade está inserida nele.


Dar um tempo
Fabrício Carpinejar

Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe. O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos. Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos. Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto. Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense. Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio. É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga. Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas. Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença, sem levar ou deixar algo. Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer. Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.

Dar um tempo é igual a praguejar "desapareça da minha frente". É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo. É um jeito educado de faltar com a educação. Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes. Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar, já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance. Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou. E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo. Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo. Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo. Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola. Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes. Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo. Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo. Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança. Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido. Melhor a clareza do que os modos. Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir. Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus. Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.

Resumir a relação a um ato mecânico dói. Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora. Espera-se algo que escape do lugar-comum. Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste. Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois. Dar um tempo é roubar o tempo que foi. Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo. É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos. É compatível em maldade com "quero continuar sendo teu amigo". O que se adia não será cumprido depois.



Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.
Clarice Lispector

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