quinta-feira, 28 de maio de 2009

Todo

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Os ansiosos sabem bem como fazer nascer e depois alimentar uma expectativa até que ela se torne um monstro enorme. No modo XXL da espera. Alguém te diz que algo diferente deve acontecer. Combina alguma coisa com você. Você lê no jornal que algo deve se tornar realidade. Recebe por e-mail a notícia de que algo ou alguém está chegando. Pronto. Qualquer uma dessas possibilidades basta para que você imagine a situação que está por acontecer, seja ela boa ou ruim, milhares de vezes na sua cabeça. E você simula a situação
mentalmente mais uma vez. E mais uma. Cada vez que imagina o fato ocorrendo, um detalhe é inserido: um gesto, uma abordagem, uma palavra, uma trilha sonora, mais personagens, um novo cenário, o que você estará vestindo no momento fatídico. E depois de tanto confabular em sua mente, você chega à situação ideal. Decide os closes, enquadramentos, luzes e o momento exato em que rola uma lágrima. Tudo perfeito. Você está pronto. Que rufem os tambores e comece o show. Não. Suspendam a apresentação. A história quase acontece. A pessoa quase chega. O fato quase vira notícia. Você quase diz o que pretendia. A lágrima quase sai. Tudo quase se torna realidade e você se frustra por inteiro.

Dessa forma, os ansiosos como eu, criam uma relação sofrida com o quase. É preciso aceitá-lo muitas vezes, pois boa parte das coisas desse mundo não depende somente de nós mesmos. Mas como é difícil! Para quem vive por inteiro, se contentar com a metade pode ser muito dolorido.

O texto abaixo, da Sarah Westphal, uma estudante de Florianópolis, sintetiza de uma forma muito bonita e poética essa relação. Para mim, é um daqueles textos dos quais me sinto parte ou que passaram a fazer parte de mim.


Quase
Sarah Westphal

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto!

A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente a paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance!

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando; porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.



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segunda-feira, 25 de maio de 2009

Básico

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Um bom jeans escuro, sapatos confortáveis, esmalte vermelho e muita coragem para ser feliz.



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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Tempo que não se pede

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Eu já dei um tempo com alguém. Na verdade, a pessoa me pediu o tal tempo. E eu, que nunca acreditei nessa história, me vi agarrada à esperança de que o afastamento melhoraria as coisas. Todo mundo que entra nessa acredita que vai ser diferente. Mesmo vendo diversas histórias fracassadas de gente que deu um tempo, voltou e mais tarde percebeu que o descompasso era irreversível. Eu, como a maioria das pessoas que gosta e se importa, me agarrei à exceção, ao mísero caso da prima da amiga da namorada do irmão, que depois de dar um tempo, casou com o dito cujo, teve três crianças bochechudas, comprou um labrador e viveu feliz para sempre, amém. Acreditei que a fase boa voltaria. Ele lembraria de como era bom. Eu poderia rever minhas atitudes. Ficaríamos juntos novamente. Nós até reatamos por algum tempo, mas não foi definitivo. Algum tempo depois o desgaste ficou evidente demais e a corda rompeu. Cada um para o seu lado. Nunca existiu tempo para ser negociado.

Isso aconteceu há um bom tempo. Na época, por uma dessas coincidências da vida, o texto a seguir chegou até mim. Eu não o levei a sério e me senti agredida durante a leitura. Preferi conservar a esperança. Olhando com mais calma depois, percebi o quanto de verdade está inserida nele.


Dar um tempo
Fabrício Carpinejar

Não conheço algo mais irritante do que dar um tempo, para quem pede e para quem recebe. O casal lembra um amontoado de papéis colados. Papéis presos. Tentar desdobrar uma carta molhada é difícil. Ela rasga nos vincos. Tentar sair de um passado sem arranhar é tão difícil quanto. Vai rasgar de qualquer jeito, porque envolve expectativa e uma boa dose de suspense. Os pratos vão quebrar, haverá choro, dor de cotovelo, ciúme, inveja, ódio. É natural explodir. Não é possível arrumar a gravata ou pintar o rosto quando se briga. Não se fica bonito, o rosto incha com ou sem lágrimas. Dar um tempo é se reprimir, supor que se sai e se entra em uma vida com indiferença, sem levar ou deixar algo. Dar um tempo é uma invenção fácil para não sofrer. Mas dar um tempo faz sofrer pois não se diz a verdade.

Dar um tempo é igual a praguejar "desapareça da minha frente". É despejar, escorraçar, dispensar. Não há delicadeza. Aspira ao cinismo. É um jeito educado de faltar com a educação. Dar um tempo não deveria existir porque não se deu a eternidade antes. Quando se dá um tempo é que não há mais tempo para dar, já se gastou o tempo com a possibilidade de um novo romance. Só se dá o tempo para avisar que o tempo acabou. E amor não é consulta, não é terapia, para se controlar o tempo. Quem conta beijos e olha o relógio insistentemente não estava vivo para dar tempo. Deveria dar distância, tempo não. Tempo se consome, se acaba, não é mercadoria, não é corpo. Tempo se esgota, como um pássaro lambe as asas e bebe o ar que sobrou de seu vôo. Qualquer um odeia eufemismo, compaixão, piedade tola. Odeia ser enganado com sinônimos e atenuantes. Odeia ser abafado, sonegado, traído por um termo. Que seja a mais dura palavra, nunca dar um tempo. Dar um tempo é uma ilusão que não será promovida a esperança. Dar um tempo é tirar o tempo. Dar um tempo é fingido. Melhor a clareza do que os modos. Dar um tempo é covardia, para quem não tem coragem de se despedir. Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus. Dar um tempo não significa nada e é justamente o nada que dói.

Resumir a relação a um ato mecânico dói. Todos dão um tempo e ninguém pretende ser igual a todos nessa hora. Espera-se algo que escape do lugar-comum. Uma frase honesta, autêntica, sublime, ainda que triste. Não se pode dar um tempo, não existe mais coincidência de tempos entre os dois. Dar um tempo é roubar o tempo que foi. Convencionou-se como forma de sair da relação limpo e de banho lavado, sem sinais de violência. Ora, não há maior violência do que dar o tempo. É mandar matar e acreditar que não se sujou as mãos. É compatível em maldade com "quero continuar sendo teu amigo". O que se adia não será cumprido depois.



Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito.
Clarice Lispector

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Felipe

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Quando éramos pequenos você era o mini-me.
Mesma cara, mas com colorações diferentes.
Você mais branco, eu menos.
Seu olho verde-água, o meu uma mistura de verde, azul, cinza e amarelo.
Agora você é o big-me.
Já me passou faz tempo.
E não foi só no tamanho.
Você já me acordou no grito.
Puxou meu cabelo.
Comeu a minha parte do pacote de bolachas.
Já me empurrou na piscina.
Mais de uma vez, me fez rir quando eu não deveria.
Dividiu o apartamento comigo e me emprestou alguns abraços.
Em um dos seus aniversários, tomei um dos maiores porres da minha vida.
No seu trote, a mesma coisa.
Digo por aí que tenho um irmão-amigo-amigo-irmão.
A-m-o-v-o-c-ê.





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quinta-feira, 14 de maio de 2009

Fantástica definição

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A "literatura de mulherzinha" da irlandesa Marian Keyes, para a qual torci o nariz inúmeras vezes, me conquistou de verdade. Lembro de entrar nas livrarias, ver os livros dela em exposição e pensar "Melancia? Isso lá é nome de best-seller? E Sushi então?" Foi só ler o primeiro para sentir vontade de devorar todos os outros. Embora eu não tenha gostado muito do último - Los Angeles, que tem como protagonista a irmã mais certinha da família Walsh - todos foram muito divertidos, com direito a gargalhadas entre um capítulo e outro e identificação absoluta com as atitudes desequilibradas e extremamente femininas das personagens.

Copiei o trecho abaixo há um tempo. Acho que li Melancia em março, em meio a uma dor-de-cotovelo daquelas, que desencadeou um surto literário (foram oito livros em três semanas... Obsessiva, eu?), mas sempre que leio essa definição dela para um lapso, me divirto bastante.


De forma temporária, a Insanidade veio sem ser chamada e gritou: “Entre, a porta está aberta.” Por sorte, a Realidade chegou inesperadamente em casa e encontrou a Insanidade Temporária vagando livre pelos corredores da minha mente, entrando nos quartos, abrindo armários, lendo minhas cartas, espiando dentro da minha gaveta de lingerie, esse tipo de coisa. A Realidade correu e chamou a Sanidade. Depois de uma briga, ambas conseguiram expulsar a Insanidade Temporária e bateram com a porta na cara dela. A Insanidade Temporária agora está caída em cima do cascalho da estrada de acesso da minha mente, arquejando, furiosa, e gritando: "Ela me convidou para entrar, sabem? Ela me convidou. Me queria lá."
Melancia - Marian Keyes




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segunda-feira, 11 de maio de 2009

O dia que eu ganhei um poema

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Recebi no dia 12 de dezembro de 2005.
Não tenho contato com o autor já faz um bom tempo.
Mas qualquer hora dessas checo com ele se posso colocar seu nome aqui.


Um soneto e um p.s. para Anelize

Se vir por aí a Anelize,
Faça-me o favor e me avise.
Faz um tempão que eu tô procurando
Pra contar pra ela do meu plano:

Ela pode ir comigo pra China
Trabalhar vendendo cocaína.
Eu faço em casa as embalagens
E com umas vinte ou trinta viagens

A gente junta grana e sai do ramo.
Vai dizer que não é um grande plano!!
Mas só vou se a Ane for comigo,

Do contrário viro um puta zen,
E não vou morar na china nem
Se o neto do Mao for meu amigo.


P.s: se o negócio for bom
E a gente torrar toda a remessa,
Podemos fazer um bico e com
Qualquer coisa a gente recomeça:
Traficante de "bom-bom" na China.

Vamos Ane! Minha Heroína!

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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sempre

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Algumas pessoas se comunicam facilmente com um olhar, com um gesto, com um suspiro. Eu preciso das palavras. Organizo minhas ideias, pensamentos e sensações em forma de texto. Às vezes não é muito fácil e, na maior parte do tempo, as descrições que crio para definir meu mundo são incompreensíveis para as outras pessoas. Só fazem sentido para mim. Mas o fato é que gosto muito das palavras, do seu significado e sonoridade. Talvez esse gosto, que demorei um pouco para notar, tenha definido minha escolha profissional. Hoje as palavras são minha principal ferramenta de trabalho e tenho com elas uma relação cada vez mais íntima. Isso me permite também não gostar de algumas delas. Duas me incomodam especialmente: nunca e quase.

Minha mãe criou a intriga com o nunca. Cresci a ouvindo dizer "nunca diga nunca". Qualquer reclamação em que a palavra estivesse presente - nunca vou conseguir, nunca vou conhecer esse lugar, isso nunca vai dar certo - era respondida com uma careta e com uma explicação breve de que nunca é tempo demais e que era muita pretensão minha ou de quem quer que fosse achar que o futuro já estava definido. Ela me dizia para deixar o nunca de lado e acreditar, fazer acontecer. Lembro que quando eu era pequena, detestava essa injeção ânimo que ela insistia em me dar. Queria o direito de acreditar que não aconteceria, de me proteger da frustração, de me esconder atrás do nunca e simplesmente aceitar a ideia de que eu não conseguiria algumas das coisas que queria (com o tempo descobri que minha alma gosta de ser miserável de vez em quando... Mas isso é assunto para outro post). Só sei que de tanto vê-la insistir no tema, acabei incorporando o espírito da coisa ao longo do tempo. Atualmente me vejo aconselhando os amigos com a mesma expressão gasta que ouvi durante anos e anos da minha mãe. Nunca diga nunca.

Talvez, por passar a acreditar nesse quase mantra, eu tenha me machucado mais e insistido em coisas que não valiam a pena. Mas, ao mesmo tempo, passei a lutar muito mais por aquilo que desejo de verdade (e tem que ter muita verdade nesse querer) e aprendi a não esmorecer na primeira derrota. Com essa persistência ganhei muitas coisas boas - amigos, conhecimento, paz, trabalhos, amores - e, principalmente, a admiração da minha mãe.

Cedo ou tarde, vai acontecer o melhor para você. Seja sempre o melhor que puder.

O quase fica para depois, combinado?




O mais corajoso dos atos ainda é pensar com a própria cabeça.
Coco Chanel

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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Seguindo

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Para quem deseja, observa e absorve, no fim tudo é aprendizado.


“Se vai dar certo ou não? Só Deus sabe, mas o que importa é que hoje você tem que tentar esquecer as dores passadas e se abrir para um novo começo. Eu sei, foram muitos. Um a mais quê que custa? Se não for dessa vez, a vida te dará coragem para levantar e recomeçar o processo que já te é familiar há anos. Vai passar, sempre passa! A felicidade – essa retardada que vive atrasada – um dia vai fazer morada na tua vida; já a dor – essa cretina que hoje te maltrata tanto – há de passar!”
Anália – Corporativismo Feminino



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