segunda-feira, 20 de abril de 2009

Exercício do gosto e não gosto

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Eu fiz e proponho que você o faça também. Consegui lembrar de algumas sensações muito boas buscando o que gosto de verdade. Outras, nem tanto, ao puxar na memória coisas de que não gosto. Quem quiser se aventurar, mande o texto para mim (anelize03@gmail.com) e o publicarei aqui, junto com o meu.

Agora, o resultado:

Gosto do sol, quase o amo. Do entardecer, não gosto. Mas gosto da lua bem cheia em um céu com poucas estrelas. Não que eu não goste delas, mas gosto de pensar na lua como algo solitário. Gosto dos livros e do cheiro que ganham com o tempo. Por isso adoro os que vêm de bibliotecas. Gosto de encontrar anotações de desconhecidos nos livros. Gosto de cheiro de baunilha. Em mim, nos outros, no mundo. Gosto de palavras – escritas, faladas e sussurradas. Gosto de Gullar, Bandeira, Quintana e Leminski. De quem extrai poesia das coisas comuns do dia-a-dia. Gosto de quem escreve assim no geral. Por isso gosto muito de Carpinejar. Gosto ainda de Garcia Márquez e da irlandesa Marian Keyes. Não gosto de ter que esquecer. Essa obrigação me maltrata. Também não gosto de ter que gostar. Gosto de maquiagem, mas não uso todos os dias. É minha arma contra o tédio que sinto de mim mesma em algumas manhãs e noites. Não gosto da obrigação de me divertir. Acho que por esse motivo não gosto das festas de carnaval e de ano novo. Não gosto de fazer aniversário. Trazer à memória tudo que não foi e o quanto ainda falta. Gosto de almoço em família, de cheiro de comida e de crianças. Gosto ainda de encontrar e reencontrar os amigos, de emagrecer e entrar naquela calça jeans antiga, de cachorros e das receitas do meu pai. Gosto de ver o quanto meus irmãos aprenderam e ainda vão aprender. De perceber que estão se tornando bons homens. Gosto do verão, de frio na barriga, de dançar loucamente e de ataques gratuitos de riso. E dos seriados médicos em geral. Gosto de pessoas de personalidade forte. De homens morenos que misturam coragem e doçura e que, mesmo sem querer, me façam rir e que riam comigo. De mulheres de fibra e de força. Das mães. Gosto de respeito, de olhos nos olhos e de me sentir protegida. Da cor confusa dos meus olhos. Tenho medo de me apaixonar, mas gosto da sensação quando acontece. Gosto de ter fé, de ser capaz de controlar meus anseios e de ter uma grande ideia. Não gosto de falar demais – mesmo que eu faça isso o tempo todo – e de planos distantes. Tenho impressão de que entre o plano e a realização, o tempo para dar errado é grande demais. Gosto de mudanças, grandes e pequenas, de ter a chance de recomeçar. De música que me lembra algo ou alguém. Gosto do perdão, por isso o concedo com facilidade. Gosto de intensidade e de entrega. Não gosto de ficar sem entender, de quando me negam uma explicação e de sumiços. Eu gosto do ponto final.



Coerente: um sujeito que nunca teve outra ideia.
Millor Fernandes



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Um comentário:

  1. Já conversei com uma pessoa que não gostava desse tipo de exercício porque dizia que, a partir da descrição, a pessoa (ou um ser, que seja) fica algemada àquela descrição. Discordo veementemente. É bem esse tipo de exercício ajuda, entre outras coisas, a amadurecer os achismos, dá-los a oportunidade de serem revistos. Enfim, gostos à parte, vim só dizer que teu texto ficou bem bonitinho. :) Beijo

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