quinta-feira, 30 de abril de 2009

Um novo ponto de vista

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A jornalista e escritora Elizabeth Gilbert, autora do best-seller “Comer, rezar e amar”, publicou neste livro uma definição curiosa a respeito das almas gêmeas, dada por um texano que ela conheceu durante seu retiro espiritual na Índia. Nunca tinha pensado no tema dessa forma. Quando terminei de ler, alguma coisa se encaixou dentro de mim. Por isso copiei o trecho no meu inseparável caderninho de anotações para todas as finalidades (é possível encontrar receitas, listas de compras ou de coisas que quero, classificações de 1 a 10 para as minhas vontades no dia, pensamentos aleatórios, trechos de livros, comentários sobre filmes, entre outras coisas) e hoje divido com vocês. Aliás, este livro, que comecei a ler cheia de preconceitos, mexeu comigo de muitas formas e me fez repensar a minha relação com a fé.


“As pessoas acham que alma gêmea é o encaixe perfeito e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa mostra tudo que está prendendo você, a pessoa chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, por que elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora”.
Comer, rezar e amar - Elizabeth Gilbert



Partindo dessa definição, talvez a minha alma gêmea já tenha passado pela minha vida. Talvez. Não preciso dizer que não me sinto pronta para essa constatação, certo?




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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Partida e chegada

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Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa:

Solidão: substantivo feminino 1 estado de quem se acha desacompanhado ou só; isolamento 2 caráter dos locais ermos, solitários 3 local despovoado e solitário; retiro 4 vasto espaço ermo, sem população humana 5 sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado em meio a um grupo social Solidão a dois estado ou condição de duas pessoas (ger. casadas) que, não obstante viverem juntas, não se entendem nem se comunicam uma com a outra.


Um substantivo feminino que pode representar em alguns momentos toda a paz que se pode desejar e, em outros, todo o medo e desconsolo. Transito pelas duas sensações – tranquilidade e pavor – de uma forma tão natural que quase nem percebo. É como pegar o carro no domingo para ir ao mercado e, sem querer, fazer o caminho para o trabalho, tão corriqueiro de segunda a sexta. Só percebo o lapso quando vejo o prédio espelhado na minha frente. Assim funciona também com a solidão. Sem me dar conta, troco a paz do silêncio da casa vazia, dos quatro episódios seguidos de Grey’s Anatomy, do sono leve em meio a algum programa familiar da Discovery Home and Healthy nas tardes de sábado, por uma ansiedade corrosiva. Pulo do sofá e procuro não sei o quê. Abro as persianas e janelas para deixar entrar luz e aquecer o coração. Nessa cidade nem sempre tem luz. Sento. Respiro. Repasso os nomes na agenda do celular. Gosto tanto do silêncio e ele é tão raro... Confiro então os nomes no msn. E lá estão eles, amigos e amores. Por que é tão difícil clicar em um dos nomes e abrir o coração, pedir ajuda? Não. Eu sou animada, sorridente, bem humorada e positiva. Vendi essa imagem tempo demais para voltar atrás agora. Por falta de prática, não desenvolvi habilidade para repartir minhas fraquezas. Não as exibo por completo nem mesmo para mim. Além do mais, são poucos os bons e sensíveis ouvintes que me estimulam a falar sobre assuntos secretos. De modo geral, as pessoas, querendo o meu bem, começam a sugerir freneticamente soluções para os problemas que elas não conhecem, pois não pararam para escutar. Melhor calar.

Música alta abafa os pensamentos e sentimentos, por mais que eles berrem e se debatam. O coração se acalma e a hora de dormir sempre chega.




Tudo é uma questão de
manter a mente quieta,
a espinha ereta
e o coração tranqüilo.
Walter Franco


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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Quando cai a tarde

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Fabrício Carpinejar sintetiza nesse texto as emoções que cabem no fim da tarde, quando o sol está no meio de sua despedida.

O fim da tarde
Fabrício Carpinejar

O fim da tarde é severo, já me avisou Raimundo Carrero. Não se pode brincar com a seriedade do entardecer. Não se encontra ânimo para mentiras, brincadeiras, conversas paralelas. É olhar de frente. Período em que se fala as verdades e se assobia para a noite não estranhar a casa. As lojas enrolam suas portas, o que era para ser julgado foi julgado em horário comercial. O vendedor ambulante toma a calçada com sua esteira de praia. O fim da tarde deixa até os animais preocupados, os cães se prostram nos portões, os gatos se devolvem para as janelas, os lobos se aninham nas patas, os cavalos dormem nas viseiras. O fim da tarde é uma manhã escura, uma noite clara: as crianças revisam os brinquedos. O fim da tarde é retirar o sapato, ainda de sangue quente, e desprezá-lo ao lado como um desconhecido esmolando atalhos. O fim da tarde é severo, a vida não mais está em jogo, penso em lavar os cabelos com o vento, sentar em uma cadeira para fora da varanda e deixar algo amadurecer sem minha ajuda. O fim da tarde costuma ser o momento em que se vacila os medos, as certezas, as convicções. É pintar os ruídos, tirar o boné e deixar os talheres se misturarem na gaveta. O fim da tarde é o molho de chaves, a eletricidade anônima, a porta descascando. O fim da tarde pede desculpas como quem pede um copo de água. A camisa está dobrada, vincada, com um cheiro entre a sujeira e a vida iniciada. É preciso acalmar as roupas. O fim da tarde é um sofrer sem sofrimento, um ter acontecido por amor ou esquecimento. Não se diz nada em voz alta. Pentes com três dentes servem para mastigar. Não é hora de se curvar para pegar moeda ou de esconder pensamentos, doenças, fragilidade. Há justiça no abandono. A gente sorri porque os pés estão esticados, semelhantes às raízes de baobá. O fim da tarde é alguma coisa que falta, que foi embora, sumiu, e ficamos aguardando sem noção alguma do que seja. O fim da tarde é uma paciência do que foi, um começo do que acabou. Move-se o alimento com indulgência, sem vencer ou perder. As palavras estão atrasadas para serem escritas. Cochilo de cansado e vou abrindo os olhos desajeitados, pela insistência que só vira mesmo esperança no fim da tarde.



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terça-feira, 21 de abril de 2009

Parabéns, Jake!

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Ela não é assim.
Nem assado.
Ela é frito!
Com molho para completar (se for o do McChicken, melhor).
E abre sachês de catchup como ninguém.

Só ela para me fazer um texto de aniversário tão calórico.



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segunda-feira, 20 de abril de 2009

Exercício do gosto e não gosto

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Eu fiz e proponho que você o faça também. Consegui lembrar de algumas sensações muito boas buscando o que gosto de verdade. Outras, nem tanto, ao puxar na memória coisas de que não gosto. Quem quiser se aventurar, mande o texto para mim (anelize03@gmail.com) e o publicarei aqui, junto com o meu.

Agora, o resultado:

Gosto do sol, quase o amo. Do entardecer, não gosto. Mas gosto da lua bem cheia em um céu com poucas estrelas. Não que eu não goste delas, mas gosto de pensar na lua como algo solitário. Gosto dos livros e do cheiro que ganham com o tempo. Por isso adoro os que vêm de bibliotecas. Gosto de encontrar anotações de desconhecidos nos livros. Gosto de cheiro de baunilha. Em mim, nos outros, no mundo. Gosto de palavras – escritas, faladas e sussurradas. Gosto de Gullar, Bandeira, Quintana e Leminski. De quem extrai poesia das coisas comuns do dia-a-dia. Gosto de quem escreve assim no geral. Por isso gosto muito de Carpinejar. Gosto ainda de Garcia Márquez e da irlandesa Marian Keyes. Não gosto de ter que esquecer. Essa obrigação me maltrata. Também não gosto de ter que gostar. Gosto de maquiagem, mas não uso todos os dias. É minha arma contra o tédio que sinto de mim mesma em algumas manhãs e noites. Não gosto da obrigação de me divertir. Acho que por esse motivo não gosto das festas de carnaval e de ano novo. Não gosto de fazer aniversário. Trazer à memória tudo que não foi e o quanto ainda falta. Gosto de almoço em família, de cheiro de comida e de crianças. Gosto ainda de encontrar e reencontrar os amigos, de emagrecer e entrar naquela calça jeans antiga, de cachorros e das receitas do meu pai. Gosto de ver o quanto meus irmãos aprenderam e ainda vão aprender. De perceber que estão se tornando bons homens. Gosto do verão, de frio na barriga, de dançar loucamente e de ataques gratuitos de riso. E dos seriados médicos em geral. Gosto de pessoas de personalidade forte. De homens morenos que misturam coragem e doçura e que, mesmo sem querer, me façam rir e que riam comigo. De mulheres de fibra e de força. Das mães. Gosto de respeito, de olhos nos olhos e de me sentir protegida. Da cor confusa dos meus olhos. Tenho medo de me apaixonar, mas gosto da sensação quando acontece. Gosto de ter fé, de ser capaz de controlar meus anseios e de ter uma grande ideia. Não gosto de falar demais – mesmo que eu faça isso o tempo todo – e de planos distantes. Tenho impressão de que entre o plano e a realização, o tempo para dar errado é grande demais. Gosto de mudanças, grandes e pequenas, de ter a chance de recomeçar. De música que me lembra algo ou alguém. Gosto do perdão, por isso o concedo com facilidade. Gosto de intensidade e de entrega. Não gosto de ficar sem entender, de quando me negam uma explicação e de sumiços. Eu gosto do ponto final.



Coerente: um sujeito que nunca teve outra ideia.
Millor Fernandes



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sexta-feira, 17 de abril de 2009

A melhor cantada da Língua Portuguesa

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Cantada
Ferreira Gullar

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana


Para saber mais sobre o autor, clique aqui.



Para os meninos que não são adeptos da poesia e que jamais pensariam em algo tão elaborado no meio de uma balada com música alta e um pouco de álcool no sangue – se você estiver perdidamente bêbado, procure não incomodar ninguém – sugiro a utilização dos b’s indispensáveis: bom humor, bom senso e bom papo.




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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Um começo

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Ninguém está pronto. Para sair da casa dos pais, se apaixonar, casar, terminar, mudar de emprego ou ter um filho. Para cada novidade, para cada escolha, feita por nós mesmos ou por um capricho da vida, surgem inúmeros novos questionamentos.

Cada passo, um desafio. Cada êxito, uma alegria. Cada fracasso, uma dor.

E quando você se sentir pleno em uma alegria ou miserável no sofrimento, a vida – essa adorável cretina – vai colocar a realidade diante dos seus olhos e vai provar que sim, pode haver felicidade maior ou que não, você ainda não bateu no fundo do poço.

Nesse momento você não estará pronto, por que ninguém está. Nem eu, nem você e nem mesmo esse texto. Tão pouco esse blog. A vida é isso: um processo contínuo de descoberta e transformação e você é o seu próprio projeto-piloto, sua cobaia, sua ferramenta para explorar e sentir. O segredo é descobrir qual a melhor forma de nos submetermos aos nossos próprios experimentos.



Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.
Jean Paul Sartre

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