terça-feira, 6 de julho de 2010

Na rua.

.

.

.

Em um dia muito quente de verão, eu coloquei meu vestido florido preferido e mais prático para ir ao médico no centro de Florianópolis. Como o calor era demais, saí sem maquiagem e com os cabelos mais ou menos molhados, já que ficar debaixo de um secador de cabelo no alto verão é algo impossível. Estava meio perdida, olhando de um lado para o outro, no esquina da Felipe Schimidt com a Deodoro, procurando por uma farmácia que o endocrinologista indicou. Nem de longe eu estava nos melhores dias da minha vida. Estava acima do peso. A tireóide preguiçosa desde o fim do ano passado ainda não revelada e a comilança no Rio Grande do Norte fizeram mal para a minha silhueta. Eis que um senhor, com um ar distinto e com alguns documentos na mão, me abordou de forma educada. Tomei um susto, porque estava realmente concentrada em achar a tal farmácia. Ele parou na minha frente, sorriu e perguntou: Are you brazilian? Assenti com a cabeça que sim. Ele exclamou: Que bom! Posso falar português! Ele não esclareceu se achou que eu era estrangeira, mas tudo leva a crer que sim. Enão o senhor abriu um sorriso ainda maior e disse (pelo que me lembro, com essas palavras): Bom dia! Desculpe por te parar assim, sei que parece estranho, mas queria dizer que se eu não fosse casado com a minha senhora, pediria a mão da senhorita em casamento agora mesmo. Você é muito bonita! Parabéns! Apertou a minha mão, sorriu mais uma vez ainda. Desejou bom dia novamente e seguiu seu caminho. A coisa toda durou uns 3 minutos, pela minha contagem, muito mais psicológica do que cronológica. Costumo me ofender com abordagens de homens estranhos por aí. Nesse dia fiquei meio atônita, mas não ofendida. Talvez ele tenha enxergado em mim naquele momento algo que luto todos os dias, desde que tomei consciência de que sou uma representante do sexo feminino, para enxergar. Dá para contar nos dedos as vezes que consegui. Assim sou eu, refém da máquina de moer gente.



.

.

.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Reflexões.

.

.

.

Para ler ouvindo:



Se alguém de hoje encontrasse a Anelize do início de 2009 e contasse a ela como estaria sua vida em junho de 2010, provavelmente ela riria e faria um milhão de piadas com a “história vinda do futuro”. Nos últimos anos eu vinha levando tanta porrada – no sentido metafórico, obviamente, do contrário, Maria da Penha neles – que não acreditava nessa coisa de relacionamento duradouro, mãozinhas apertadas ao pôr do sol, troca de presentinhos, cartinhas melosas, dividir uma cama, uma casa, e todas essas coisas que a construção de um relacionamento comprometido, baseado em um grande amor, demandam. Sei que não sou uma pessoa muito tradicional, e que não devo levar em consideração todos os meus pensamentos – acho que ninguém deve fazer isso – mas eu considerava os planos que fazia no escuro do meu quarto. Já havia inserido na minha agenda futura coisas como reprodução independente, fazer economias para pagar uma enfermeira quando eu fosse uma velha sozinha, e coisas provavelmente ainda mais descabidas para uma recém-formada de 24 anos. Muitas dessas memórias acabaram rapidamente deletadas...

Então, quem já tinha vislumbrado presente, passado e futuro, no melhor estilo mãe Dinah, teve sua trajetória totalmente mudada em nome do amor. Foi fácil? Não. Aliás, não é. Não fiquem achando que estar com o amor da sua vida embeleza a mais feia das cidades, ameniza a convivência com a falta de educação das pessoas ou substitui um salário justo. Talvez nos primeiros dias, estar com que você ama, de fato, compense tudo. Mas os dias vão passando e você, como um indivíduo e não como extensão de quem ama, passa a sentir falta dos seus próprios sonhos. Então vem a parte dois, ainda mais complicada do que a primeira. Nesse momento, você senta no sofá e pensa: vale a pena?

O poeta já diria que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Entretanto, para se levar adiante um relacionamento adulto, é necessário muito mais do que uma louca paixão. Ela deve existir? Óbvio, ela é o combustível que vai motivar qualquer mudança. Pessoalmente, é isso que me mantém em pé. Mas se fazem necessárias também compreensão, paciência, fé, força, coragem e, principalmente, resignação. Fatalmente as coisas fogem ao nosso controle. Muitas vezes, não é possível controlar as nossas próprias emoções. Imagine então querer controlar as pessoas à sua volta ou cada acontecimento. Isso simplesmente não é viver. Viver é também esperar uma ação e, só depois, de cabeça fria, propor uma reação. Nem todas as escolhas são feitas pelo protagonista. Os coadjuvantes, o diretor e, principalmente, o roteirista, são cheios de vontades.

Mas se é tão difícil, o que me segura aqui, às vezes solitária, paranóica, meio miserável em uma cidade com a qual – pela segunda vez – não me identifico? Além do amor imenso pelo cara que me fez estar aqui hoje, e que é uma coisa que começa e termina em mim, e ninguém nunca vai poder sentir (você pode sentir os efeitos do amor de uma pessoa, mas dificilmente vai saber exatamente o que esse sentimento significa para ela) a reciprocidade me faz seguir em frente.

Fosse alguém menos perseverante ou, aos meus olhos, menos apaixonado e certo do que quer para si, essa história teria acabado aqui. Mas não. Para cada lágrima, um afago. Em cada data importante, um agrado, venha ele de outro país, de outra cidade ou a 150 km da costa. Para cada crise, uma solução e uma garantia: nós vamos solucionar cada problema que aparecer, um de cada vez, juntos. Sei que não é fácil, e ele às vezes se cansa dessa minha luta contra os meus monstros, que para ele mais parecem moinhos de vento, e mesmo assim, minha dor nunca foi menosprezada.

Posso dizer que o retrospecto também ajuda. Não faz muito tempo, outra mulher vivia uma situação muito semelhante. Por sorte, ela é minha mãe e está por perto para antecipar algumas situações e me mostrar que tudo pode ser superado, com um pouco de fé e na companhia certa.

Às vezes as coisas ficam confusas, eu surto, tenho medo de sumir. Não fisicamente, mas temo que a pessoa que eu sou e os sonhos que eu tenho se percam em meio à confusão e ao novo mapa que a vida tem me apresentado todos os dias. Então algo lá no fundinho da minha alma me traz de volta e ouço uma voz baixinha dizendo: você pode, vale a pena, força, menina! Cá estou eu, na luta novamente.

Se meus planos mudaram e ainda não me acerto com eles em alguns aspectos, outros me fazem pensar que nada poderia ser diferente. Acredito em destino, em pessoas certas, nos lugares certos, na hora perfeita. Olhando para trás, vejo que algumas das dificuldades que passei, e que pareciam gigantes e infinitas, vieram para mudar o rumo das coisas e me poupar de coisas com as quais eu não poderia lidar. Deus dá o frio conforme o cobertor. Dessa vez certamente não será diferente.

Hoje estamos aqui. São um ano e dois meses juntos. Um ano de namoro. Seis meses dividindo o apartamento e construindo um lar. Tentamos achar nosso tempo em um calendário diferente daquele que os casais que vivem juntos utilizam. São 15 dias no mar e, quando é possível, 15 juntos. Dependendo do ritmo de trabalho – o mundo do petróleo não pode parar – o tempo em casa se reduz e precisamos inventar mil formas de fazer com que ele se prolongue. Tudo que é bom dura pouco. Nós precisamos ignorar o ditado e fazer com que dure o suficiente para manter o coração aquecido. Essa é a nossa guerra. Cada batalha vencida traz alívio e renova as energias para a próxima, que sempre tem data marcada para acontecer.

Não se enganem: não fica mais fácil com o tempo. Não posso falar por ele, mas ao longo desses meses, a cada chance de ficar juntos, descubro uma nova qualidade, um novo ângulo, um novo olhar, que me fazem querê-lo por perto integralmente. Mas, penso que se fosse de outra forma, não seria possível. Em outros relacionamentos, que obviamente fracassaram, a rotina estabelecida e a sensação de sufocamento eram o veneno que provocavam angústia, dor e fim. Dessa vez, a máquina de moer gente foi desligada. Nesse regime há espaço para a saudade, para planejar os momentos juntos, para surpresas especiais, para conversas animadas pela internet ou ao telefone quando todas as variáveis envolvidas permitem. Há tempo para comparar a vida na presença e na ausência dele e concluir que sozinha o colorido fica um pouco opaco, um pouco desbotado, um tanto triste.

Escrevo esse texto para curar meu coração. Para organizar o fluxo de sentimentos que nos últimos dias foi muito maior do que a capacidade do meu “processador”. Redijo também para voltar ao início. Para ir de encontro às minhas motivações iniciais, que me colocaram nessa aventura. Escrevo em nome do amor que me permitiram experimentar em doses generosas.

Para você que chegou ao fim desse texto, deixo registrada uma experiência. Nem sempre ter seus planos frustrados é o fim do mundo. Por mais que estabelecer um novo planejamento seja difícil e por vezes doloroso, esse pode ser o melhor caminho. Esse pode ser o seu caminho. Para o Sérgio, fica o agradecimento. Pela paciência, pelo companheirismo, pelo calor, pela sintonia. Pelo esforço diário de ser sempre uma companhia à altura. Pela dedicação, de pertinho e de longe, e pelo respeito infinito. Para mim, fica a esperança. Um registro para ler nos momentos difíceis, instantes em que a fé e a força para continuar andando pareçam tão distantes quanto outro planeta. Um retorno ao dia que todas as ideias ficaram claras e a inspiração foi tão grande que consegui colocá-las no papel.


.

.

.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Para ele

.

.

.
Você é o melhor da minha festa.

Melhor que o frio na barriga, que o vestido novo, que o presente desejado em uma embalagem enorme, que o abraço apertado. Mais gostoso que o segundo pedaço de bolo, que a cereja extra, que o assalto à geladeira quando tudo acaba. Que a gargalhada inesperada, que a dança maluca, do que aquela música que faz sonhar. Que as marcas da comemoração pela sala, que o cansaço gostoso, que o namoro no portão.

Amo cada pedacinho seu!

.

.

.

domingo, 20 de junho de 2010

Em dupla

.

.

.
Para os mais práticos, mais horas para realizar. Para os mais românticos, menos tempo para sonhar. Para mim, a insônia é simplesmente a prima-irmã mais querida da angústia. Acredito que as duas foram abandonadas pela mãe e tiveram de cuidar uma da outra. Elas agem em dupla e nunca se deixam. Possuem um método certeiro de abordagem para que ambas possam prosperar. No começo, a insônia expulsa o sono do lugarzinho dele. Este sai assustado e deixa a porta aberta. Por essa porta entra, triunfante e sem perder tempo, a angústia, que traz em sua bolsa doses de pensamentos ruins. Entre um piscar de olhos em resposta a um som que chamou a atenção e uma ajeitada no travesseiro, ela toma conta da sua presa. O cansaço físico, o desgaste óbvio das células que se amontoam na tentativa, por vezes frustrada, de formar um corpo humano ou algo que se assemelhe, é o menor dos problemas da aventura em família. A dupla tirana corrói a alma como uma daquelas bactérias altamente mortais dos filmes – abomináveis, por sinal – de ficção científica. Depois de promover destruição e silêncio, deixa as sobras e as sucatas para alguém da família, menos nobre, mas não menos importante. Então, a solidão chega com seu passo leve e seu traje preto.

Agora não tem volta. Já estou altamente contaminada e o sono não manda nem um cartão postal, comunicando seu novo endereço.


.

.

.

sábado, 13 de junho de 2009

Meu

.
.
.
Sim, esse blog ainda tem uma dona.
Ando distante por questões profissionais. Mudanças grandes aconteceram.

Funciono assim: alguma coisa muda, profissional ou pessoalmente, e eu começo um trabalho de aceitação e readaptação intenso. Infelizmente sou dessas pessoas que precisa parar e avaliar com calma. Que não consegue simplesmente absorver as coisas durante o percurso. Uma coisa de cada vez, um contexto para cada novidade. Hoje em dia faço isso de forma mais rápida e às vezes até indolor, mas ainda não é fácil.

Como mudei o foco, nos últimos tempos não havia encontrado nada que me inspirasse a postar. Até hoje, quando achei um curta de animação que a Ilane, uma amiga muito querida, mandou para mim no ano passado. Traços simples, uma história comum e uma linda canção fazem desse um vídeo especial para mim.




.
.
.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Todo

.
.
.
Os ansiosos sabem bem como fazer nascer e depois alimentar uma expectativa até que ela se torne um monstro enorme. No modo XXL da espera. Alguém te diz que algo diferente deve acontecer. Combina alguma coisa com você. Você lê no jornal que algo deve se tornar realidade. Recebe por e-mail a notícia de que algo ou alguém está chegando. Pronto. Qualquer uma dessas possibilidades basta para que você imagine a situação que está por acontecer, seja ela boa ou ruim, milhares de vezes na sua cabeça. E você simula a situação
mentalmente mais uma vez. E mais uma. Cada vez que imagina o fato ocorrendo, um detalhe é inserido: um gesto, uma abordagem, uma palavra, uma trilha sonora, mais personagens, um novo cenário, o que você estará vestindo no momento fatídico. E depois de tanto confabular em sua mente, você chega à situação ideal. Decide os closes, enquadramentos, luzes e o momento exato em que rola uma lágrima. Tudo perfeito. Você está pronto. Que rufem os tambores e comece o show. Não. Suspendam a apresentação. A história quase acontece. A pessoa quase chega. O fato quase vira notícia. Você quase diz o que pretendia. A lágrima quase sai. Tudo quase se torna realidade e você se frustra por inteiro.

Dessa forma, os ansiosos como eu, criam uma relação sofrida com o quase. É preciso aceitá-lo muitas vezes, pois boa parte das coisas desse mundo não depende somente de nós mesmos. Mas como é difícil! Para quem vive por inteiro, se contentar com a metade pode ser muito dolorido.

O texto abaixo, da Sarah Westphal, uma estudante de Florianópolis, sintetiza de uma forma muito bonita e poética essa relação. Para mim, é um daqueles textos dos quais me sinto parte ou que passaram a fazer parte de mim.


Quase
Sarah Westphal

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto!

A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance. Para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente a paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance!

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando; porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.



.
.
.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Básico

.
.
.
Um bom jeans escuro, sapatos confortáveis, esmalte vermelho e muita coragem para ser feliz.



.
.
.